Soneto de Carnaval

Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.

Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado é uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.

E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim

De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranquila ela sabe, e eu sei tranquilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.

(Vinícius de Moraes)

Registro no Tempo

Na primeira Sexta Poética do ano, gostaria de deixar para vocês um poema que eu ganhei de um grande amigo de infância. Muito obrigada, meu caro. Como já disse anteriormente, que muitas pedrinhas de aquário sejam guardadas em seu coração…


Registro no Tempo

À Vitória Regina (etc etc etc)

Éramos menores
nem atinávamos no tempo,
apenas o deixávamos passar
e ele, ao passo que ia, sorria
com dentes de leite,
depois com janelinhas.

Brincávamos de sonhar
e nos fazíamos de nautas do espaço,
peões de fazendas plásticas
reis, rainhas, pirata, vagalumes…
Mas ao sonhar,
sonhávamos coisas sérias
Como construir muralhas
de pedrinhas de aquário,
escavar até o centro da terra,
sair do labirinto do Minotauro.

Tenra infância regada de imaginação,
tempo que estacionou.
Mas daqui do presente volátil
para que novos “Éramos menores”
sejam contados quando formos mais velhos
te escrevo numa folha, saudosa memória.

(Cícero Alves)